quarta-feira, agosto 02, 2006

Ends

Deixa de preguiça e leia o texto,não levará mais que 5 minutos e é lindo....

O amor acaba
by Paulo Mendes Campos
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.'


"No meio da rua" by Kid Abelha (essa música me lembra começos..... )

ps:contrariando o texto maravilhoso, acho que amor é umas das poucas coisas nesse mundo que não acaba.Pode acontecer de tudo com esse sentimento mas se é verdadeiro dura pra sempre;igual hepatite no exame de sangue: sempre vai constar...
Lake (pra mal entendedor não basta)

6 comentários:

Silvia Regina disse...

O texto é lindo, concordo. Mas eu ainda acho que o que acaba é a paixão. Amor, de verdade, não acaba. Pode até se transformar, mas acabar, acho que não acaba. Nunca, mesmo se a pessoa vier a ficar careca, gorda, e até chata. Beijos.

.:D_0ne:.:André:. disse...

Em parte eu concordo com o texto sim: o amor acaba, mas acaba só para poder renascer de novo (talvez noutro lugar, talvez com outras pessoas...). Pois nada é eterno, e o tempo a tudo corrói.

Silvia disse...

Sillllllllllllvia,vc 'captou' a mensagem

Guilherme disse...

É trágico e ao mesmo tempo deslumbrante. Musical. O amor é o fim de algo maior, uma nova explosição que será corroborada no tempo.

O amor acaba, mas para si e não todo sentimento. Enfim, o que é bem diferente da cerveja numa noitada única!

Cucalelé disse...

amor acaba sim,infelizmente...

Logan/Lord Morpheus disse...

Tb não acho q o amor acabae.... no máximo ele às vezes se transforma, ou é reprimido, mas acabar de verdade, não acredito nisso...
Lindo texto.
Bjus insanos e escarlates